Não, caro leitor, orgulhosíssima leitora. Não se trata este texto de um panfleto homófobo, longe disso, aliás. Está mais para um pedido para que soltemos nossas frangas, preparemos nossos chiliques reprimidos e façamos um movimento viril, sim, contra a frescura generalizada em que se transformou o tal Choque de Ordem, no Rio, o Psiu, em São Paulo, e outras quejanças que se espalham como praga pelos nossos areais de orla e calçadões urbanos e que ameaçam amealhar também nossas mentes e corações. Entre outras pouco louváveis ações do nosso juvenil alcaide Dudu Eletropaes, já se encontra uma lista extensa de atentados contra o bom humor histórico dos cariocas, que inclui rapto de mesinhas de botequim, proibição de caipirinhas à beira-mar e sequestro de quitutes arquetípicos como o queijo coalho e os caldinhos de panela. Para completar o cardápio, confia-se à Guarda Municipal uma nova função para o próximo carnaval: reprimir o desfile de blocos formados espontaneamente em cima da risca ou que não se cadastraram junto à governança até agosto do ano passado.
O juve alcaide realmente inscreve-se no time sem alma do antigo xerife e patrono César Mala, com quem ganhou visibilidade ao ser nomeado subprefeito… adivinhem de que bairro?! Claro, da Barra da Tijuca, o menos carioca entre todos os bairros da cidade, cujo símbolo-mor de identidade cultural mora ao lado do Barra Shopping e atende pelo nome de Estátua da Liberdade. Pois bem: o carnaval de blocos será ao estilo Liesa, agora. Com transmissão da Rede Englobo e tudo. E quem não concordar… Bem, vamos ver até onde vão a macheza e a burrice do nosso mauriçola-chefe, mas tudo indica que a Guarda Municipal está aí para o que der (ui!) e vier. César Mala, ao menos nesse ponto, conciliava: posava de bruxa na Sapucaí e agarrava com vontade, desorientado em seus casaquinhos alegóricos, a vassoura da garizada, dos lixeiros de merda do Casoy, aí dava aquela risadinha forçada e tudo bem. Passava.
Em pleno verão, nas praias do Rio já estão limitados o aluguel de cadeiras e a venda de cocos pelas tradicionais barraquinhas. Os quiosques foram, digamos, “civilizados”. As grifes de fast food, com seus precinhos salgados e sua cultura planificadora do paladar, chegaram a um local que sempre foi absorvido pela população como democrático e plural. Pois essa mistureba de biscoitos Grobo com camarõezinhos inocentes, de pipoca com churros não é muito a cara do juve alcaide. É muita merda boiando, muito pobre tomando banho e comendo queijo coalho, assim não pode, fica feio e as Olimpíadas vêm aí. O mate-limão mais saboroso do universo também já está pela bola sete. Daqui a pouco proíbem até mulher de biquíni – afinal isso pega meio mal, sabe como é, suja a imagem da cidade, principalmente para quem não curte muito, e tal…
O Rio, no entanto, não é o único armário de prefeitinho santa. Em São Paulo, no último dia 11 de janeiro, o apresentador Ratão entrevistou seu admirado, o grão mauriçola mais poderoso do Sudeste, o queridíssimo e afetuoso netinho-da-vovó Bebeto Caçab, ora em cruzada contra os vilões dos alagamentos paulistanos: os “mau brasileiros” (sic, ai se fosse o Lula!). É, a culpa das enchentes é dos caras que roubam tampas de bueiro! Querem outra? São Paulo, cuja otoridade municipal autorizou reajuste de R$ 2,30 para R$ 2,70 nos ônibus na mesmíssima semana, após um ano com registros até de deflação, é a cidade com menor tarifa de buzum do país. Serpentina nele, rapaziada! Por lá, quiçá o último reduto da malha privatista do tucanato demoníaco envelhecido, reina o Psiu. A Augusta agora dorme à 1h. E a vocação baladeira da nossa metrópole de pedra?! Que se dane, claro!
O que fica de toda essa ranhetice forçada, que se calca em falsas morais e ideais de limpezinha e que vai se multiplicando, país afora, é que, por trás do bom-mocismo de orquestrações administrativas como os Psius e Choques de Ordem da vida encontra-se um poder oficial doido para nos enrabar. Governientes como Eletropaes e Caçab querem é ir pro pau, mas não podem, não têm peito. Então disfarçam, fazem as coisas por debaixo do enrustido de seus discursos. Claro que, na primeira distração, baixam-nos o porrete! A estratégia é singela: para tentarem compensar o quadro político geral desfavorável, atêm-se a ações locais pseudocorretivas que só revelam sua real face política, de caráter perverso, elitista e autoritário. A frescura, a boiolagem institucional só serve, portanto, de máscara. A pergunta é: eles acham, realmente, que não conhecemos os seus verdadeiros rostos?
A hora, pois, é de atenção. E de reação. Em São Paulo, a população foi às ruas, ainda que em número reduzido, contra o aumento de quase 20% nas passagens de ônibus. Em regiões alagadas como o Jardim Romano, Bebeto viu-se constrangido a trafegar de carrinho para fazer seu oba-oba diante das câmeras. No Rio, o verão promete. Em seu entremeio, há o Carnaval. Profanidade beeem diferente daquelas que você costuma curtir com a playboyzada itinerante em Salvador, Dudu! Aliás, já diz um velho ponto que tem versão assinada pelos mestres Silas de Oliveira, José Dias e Marcelino Ramos: “Agora que eu quero ver/Quem é malandro não pode correr”. A festa vai começar.